Crônicas de Verônica Böhme

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Defendendo o Dinheiro
Verônica Böhme

        Todos falam da descriminação contra os negros, as mulheres, as crianças, os pobres e os velhos (sobra pouca gente, né?); mas nada se compara a toda glória descriminativa reservada os ricos!
        Curiosamente, para os pobres levantam-se bandeiras de salvação, de méritos, tendo, inclusive o direito a muitos tipos de honrarias: a fama, por exemplo, podendo aparecer na televisão sem ser chamados de arrogantes ou de qualquer outra coisa; podem pedir dinheiro, reclamar da vida, chorar, sofrer e, o mais interessante: eles têm o direito de ser felizes, (ricos felizes!?! ninguém aceita, seria algo muito maior e pior do que qualquer heresia) e finalmente, o golpe de misericórdia (para os ricos): só os pobres entrarão para o céu. Deus me livre de ser rica! Deus me livre! Deus não gosta de ricos, Ele ama os pobres e sofredores. Tenho sorte de estar pobre; se rica fosse, jogaria tudo pela janela: não suportaria o peso de levar a culpa de todas as infelicidades do mundo, nem muito menos a ira de Deus.
        Falando sério, queremos continuar a afastar o bem estar de nossa vida, da vida do nosso país?
        Vamos observar: se José ou Maria detestam tanto o dinheiro quanto os ricos (detestam os ricos justamente porque têm dinheiro, em primeira estância), assim, eles são do tipo que não gostam de comer bem, nem de cuidar da saúde: médicos e remédios não estão no programa de vida deles. Maria ou João não gostam de viajar, de comprar livros, passear com os amigos, a família; não pensam em comprar um carro novo ou fazer a manutenção do atual. Para tudo isso é preciso de dinheiro. Roupas? Ah prá quê!?! Se têm filhos eles não querem dar bons estudos à sua prole, nem preparar o futuro das crianças, nem o deles próprio: quando passarem dos 50 seria muito bom se tivessem podido providenciar uma aposentaria nos seus anos de vida mais juvenis. Arrisco até dizer que: se por acaso eles não gostam de fazer nada, também precisam de dinheiro: não fazer nada custa caro.
        Outro exemplo: João e Fátima são artistas, excluindo as raras exceções que não conheço, nunca ouvi falar de um artista que não ficou feliz por sua obra ter trazido um retorno financeiro, mesmo se nessa obra os criadores tivessem criticado os ricos. Dinheiro também pode ser liberdade. A liberdade de poder deixar um emprego se vendo livre de um chefe horrível, ou de um colega de trabalho que está fazendo nascer uma úlcera no seu organismo. Como seria bom ter a liberdade de terminar um casamento sem pensar nos bens que vai perder, o quanto mais pobre vai ficar, ou se de fato, será possível se sustentar sem o parceiro/parceira: para construir uma nova vida é preciso de dinheiro. Que não seja nada disso: simplesmente quer dar uma virada na sua vida, realizar um sonho: é preciso de dinheiro para essa empreitada.
        Vemos portanto, que esse básico para a sobrevivência é tão complexo que seria quase necessário ser rico. Não falo que todos os ricos são felizes, nada disso, porém...porém, conheço poucos pobres felizes; mergulhados nas inseguranças financeiras, na fome, na falta de educação; submetendo-se a humilhações exageradas para conseguir o mínimo para sobreviver, sem falar em uma classe econômica que fica atolada entre o cheque especial, empréstimos e o cartão de crédito. Agora, se tem tanta coisa boa que o dinheiro pode trazer, por que existem sentimentos de culpa, de rejeição, de medo e de aversão ao dinheiro, como se ele fosse algo indigno, maligno?
        São brasileiros e brasileiras vivenciando o aumento da violência familiar e social por problemas de desemprego, pela falta de dinheiro. Dinheiro é pecado? Riqueza traz infelicidade? Dinheiro impede a verdadeira amizade? Não se trata de idolatrar o dinheiro, por que de fato dinheiro não é tudo, mas sem ele, como viver? Dinheiro é como um termômetro, um medidor de caráter, de equilíbrio moral e emocional, dizer que dinheiro é sujo ou maldito são crenças que a maior parte das brasileiras e brasileiros carregam no subconsciente impedindo que eles e, consequentemente, o Brasil prospere. O dinheiro, ele é inocente.

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