As empresas deviam procurar para novos funcionários “desempregados com experiência”. É preciso ter grande profissionalismo, competência e qualidades excepcionais para conseguir qualificação nessa área: o desemprego.
Um desempregado sem experiência, pode deprimir, se sentir o último ser humano do mundo, segundos/minutos após demitido. Já o desempregado com experiência pensa que acabou de terminar uma fase de sua vida, e está feliz por essa etapa cumprida. O desempregado sem experiência tem vontade fugir, não tem coragem de contar para a família, encarar a mulher os filhos, sua masculinidade; seu orgulho de homem é ferido. Se for mulher tem vergonha de encontrar os olhos do marido culpando-a pela incompetência. E contar para os amigos? Ver aqueles olhos te chamando de coitado, feições de pena – é a pior parte. Já para o desempregado com experiência tudo isso é fácil de fazer: ele já tem prática! Chega em casa, conta rapidamente para a mulher e imediatamente liga para os amigos mais próximos, e, na hora de sentir a voz e comentários de pêsames, o desempregado com experiência diz: “olha, preciso que me motivem, palavras de ânimo, energia positiva, dicas, soluções”, já cortando essa reação de pena e coitadisse.
O desempregado sem experiência no dia seguinte, ou seja, o primeiro dia sem ir ao trabalho, acorda e fica rolando na cama remoendo, enrolando para levantar, alguns até vão tomar o café da manhã pela força do hábito, mas faz tudo desmotivado. Um desempregado com experiência, já levanta no mesmo horário que ia para a empresa vai ao parque caminhar, fazer exercício e cuidar da forma física. O sem experiência pensa e sente que acabaram todas as possibilidades da vida, que nunca encontrará um emprego como aquele, que foi injustiçado, e etc. O com experiência já vê pela frente novas oportunidades - se sente até livre - desejoso de novidades, e tem certeza que vai arrumar outro trabalho, porque afinal várias vezes ficou desempregado, logo, emprego tem, e sabe que, apesar das diversas reestruturações da globalização, tem o lugar certo, para a pessoa certa, no tempo certo.
O desempregado com experiência, fica feliz com o dinheiro da rescisão pois, consegue cobrir o cheque especial – pela primeira vez no ano - paga alguns empréstimos e, por algumas semanas dormira em paz porque não está devendo para ninguém, mais!, vê dinheiro “sobrando” na conta bancária - o que é quase um milagre - e sente esses dias como os mais maravilhosos de sua vida.
Ele aproveita esses dias como um presente pois sabe - graças a experiência que tem no desemprego - que pode chegar o desespero daqui a algumas semanas: sem dinheiro para pagar o aluguel, comprar comida, quem diria pagar as dívidas. Sabe até que vai ficar pronto, pronto para se humilhar - ele já passou por isso várias vezes - e que fará qualquer coisa para ganhar uns trocos mas, ele também sabe, essa qualquer coisa não chega e se chegar ainda faltará um mês para receber. Já os sem experiência ficam apavorados na hora, antecipando sofrimentos, pensando imediatamente na desgraça, e não tem a felicidade de aproveitar esses momentos de deleite, de liberdade, de paz espiritual e financeira.
O desempregado com experiência colocará todas as coisas em dia aproveitando para fazer aquilo que não podia quando trabalhava - ele até tem coisas que começou no último desemprego e que agora pode terminar. Já os sem experiência ficam enrolando o dia todo, se martirizando, atrapalhando a rotina da casa, ou se sozinho, fica depré e sendo um peso para os amigos.
O com experiência é mais criativo, precisa descobrir saídas, elaborar planos e estratégias. Detém maior controle emocional - porque para agüentar tantos desempregos é preciso ter controle de suas emoções - auto-domínio dos pensamentos; tem mais carisma, pois aprendeu - com a experiência do desemprego - que precisa agradar; não conta apenas com uma ou outra pessoa, é mais aberto, independente, mais livre, tem fé, esperança e finalmente, é mais dono de si. Já os sem experiência têm a tendência de se fecharem, não vêem saídas, ficam irritados, acham que a vida é ingrata, culpam aqueles que não conseguem uma nova oportunidade de trabalho para eles, perdem a fé e a esperança.
O desempregado com experiência, sabe que o carro vai quebrar e que não terá dinheiro para o conserto, sendo que, precisa do carro para procurar emprego, mas isso não o abala pois não é marinheiro de primeira viagem, é um desempregado com experiência. O com experiência tem mais brilho, mais ânimo, sempre vai encontrar mais saídas, e vai até se divertir. Enfim, sabe aproveitar melhor a vida, é mais alegre, é muito mais eficaz e profissional, porque ele sabe que sem essa energia, sem ser continuamente competente e estar dando o melhor de si, não conseguirá um novo emprego; isso só pode saber o profissional: “desempregado com experiência”.
Por todos esses motivos aqui expostos, as empresas deveriam procurar para novos funcionários “desempregados com experiência”, como se procura cabeças de ouro, como se caçam grandes talentos. É preciso ter grande profissionalismo, competência e qualidades excepcionais para conseguir sobreviver no país do desemprego.
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