Crônicas de Verônica Böhme

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Mulheres mais velhas e homens mais jovens
Verônica Böhme

        De uma maneira similar à não crença na possibilidade de viagens à Lua, época de Julio Verne, por exemplo, o cinema apresentou ao público assuntos tabus que nunca imaginaríamos que alguém tivesse a coragem ou capacidade de fazê-lo. O tabu da santidade de mães e pais expondo as violências que estes cometem contra seus filhos, tratou da vida sórdida e pouco exemplar de governantes, do racismo, das guerras religiosas, denunciou sistemas políticos, massacres, expôs a miséria e a riqueza, escancarou a situação na qual um pai deseja a amiga adolescente da filha, colocou na tela o homossexualismo e até revelou a “permissão” do assédio sexual masculino e a “proibição” do feminino, apesar de tudo ainda resta um tabu: em 99,9% dos filmes, qualquer que seja o tema, as mulheres são mais jovens e lindas que seu parceiro amoroso.
        Fico imaginando se deve haver crime mais cruel, desumano, hediondo do que uma mulher mais velha e mal cuidada com um rapaz lindo, apaixonado, fiel e de olhos todos submissos de admiração (a ela). Ao contrario, mulheres de vinte e cinco anos lindas, maravilhosas, contracenam apaixonadas, “submissas”, fiéis com olhos cheios de admiração por seus parceiros cinematográficos: homens de quarenta, cinqüenta, sessenta anos na maioria das vezes totalmente mal cuidados, com rugas, feiúras, desajeitos, gorduras, problemáticos, de maus-humores, e, curiosamente, todos acham a coisa mais normal do mundo. Que o amor seja cego, ele é cego apenas para as mulheres, os homens enxergam muito bem.
        Eu digo que o machismo transformou um homem velho em sábio e uma mulher velha em velha. Brochuras para vender palestras mostram em suas fotos de apresentação, senhores de cabelos brancos e rostos enrugados para passar a mensagem de respeito e credibilidade. Jornais televisivos aceitam com prazer esses senhores de cabelos brancos ao lado de uma jovem mulher, ao passo que uma senhora de cabelos brancos e pele enrugada apresentando um informativo na televisão e ainda ao lado de um bem-apessoado rapaz...estaríamos falando de um atentado à moral!
        Interessante que c em por cento das mulheres que conheço e conheci me dizem : “um marido é como ter mais um filho”, por quê? São elas que cuidam de tudo: da organização da casa, da comida, das roupas, da limpeza, da saúde e principalmente, mesmo que não seja visto, do emocional deles: são elas que dão “força”, toleram, são mais compreensivas, relevam, suportam mais, aconselham, não se importando em dar mais do que receber (para que será que elas precisam de homens mais velhos?).
        Esses dias – por uma total coincidência – tive que presenciar a cena degradante de uma mulher inteligente, ousada, renomada, reconhecida em todo o Brasil, e com tantos adjetivos que não caberiam aqui, se sujeitar a dizer: ”Será que as pessoas acham que não tenho nada de interessante para merecer o Giane?”, disse Marília Gabriela num programa de televisão em relação a sua união com Reynaldo Gianecchini. Sabemos, no entanto, que o inverso seria mais do que bem aceito, seria mesmo natural que um homem mais velho e bem sucedido estivesse com uma mulher mais jovem, linda e que ela ainda estivesse com os olhos cheios de admiração por ele (sentiríamos - até - que está no seu direito, que ele merece).
        O tabu de mulheres mais velhas com homens mais jovens oscila entre a rejeição e a inveja; ora se perguntam o que uma mulher mais velha quer com um homem mais jovem (não se pergunta o mesmo para um homem mais velho que está com uma mulher mais nova, por que será?), ora pessoas desdenham ao mesmo tempo em que invejam a situação.
        Que a arte contribua para que nossos olhos se acostumem a ver no cinema, nas novelas, na mídia, mulheres mais velhas, com suas rugas, ao lado de homens mais jovens, lindos, apaixonados e com os olhos cheios de admiração por elas.


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