Crônicas de Verônica Böhme

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O Carro da Crise
Verônica Böhme


        Ando somente pelo meu bairro, é mais seguro. Estradas nem pensar! Como o IPVA deste ano não foi pago, seria dar sorte para o azar me enveredar a visitar minha irmã que mora em São Paulo. Mesmo porque, a revisão já venceu há 6 seis meses e, meu mecânico me disse que eu deveria trocar os pneus traseiros, isso há um ano atrás!
        Rodo somente pelo meu bairro: me sinto mais confiante; se o carro quebrar, como não tem seguro há dois anos, não estou tão longe de alguém conhecido para pedir ajuda e levar o carro até a garagem do edifício onde moro, porque dinheiro para o guincho nem pensar!
        Outra vantagem em andar somente pelo meu bairro, é a economia da gasolina e, o mais importante: a preservação do carro!, rodando menos ele tem mais tempo de vida útil.
        Há também melhorias na vida social. Meus amigos, já sabendo do meu drama pessoal, se desdobram como bonecos de plástico para me dar uma carona. Assim, invés de sair sozinha, saio sempre acompanhada mantendo minha vida social ativa.
        Não posso deixar de mencionar as melhorias na vida espiritual. Sim, sim; creio de fato ser um dos aprendizados mais importantes do ‘carro da crise': tirar aquela falta de humildade de vez da alma! Clamando por favores, negociando enfaticamente quais são as vantagens em me dar uma carona mesmo que a pessoa não queira, de jeito nenhum, ir ao evento. São pedidos chorosos, apelos a solidariedade alheia que me fazem ficar longe da prepotência de ter autodomínio da minha vida, de ir para onde quero, quando quero e com quem quero. Desse modo, o carro da crise me liberta desse sentimento de superioridade, da sensação de acreditar que posso tudo, que não preciso de ninguém: lição de humildade é um aprendizado de ouro do carro da crise.
        O melhor de tudo no entanto, é com certeza a diversão e as gargalhas que o carro num momento de crise pode causar. Quando paro para abastecer no posto de gasolina do meu bairro o frentista provoca: “Completa?”; nesse momento dou uma gargalhada e o frentista também começa a rir; pois ele já está acostumado: sabe que eu nunca completo, sua provocação apenas nos alegra. Assim, rápido, fácil e barato ambos estamos nos divertindo: outro presente do carro da crise.
        É interessante como a ‘coisa em si' não tem valor, somos nós que a transformamos em boa ou má. Por exemplo, você compra uma Mercedes, – eu prefiro um Passat verde musgo – em principio é algo bom, mas se você fica com medo da inveja alheia, se pensa que agora será um alvo mais fácil para assaltantes e seqüestradores, a coisa que poderia ser boa se torna ruim.
        Agora se todo brasileiro, se toda brasileira fosse entrar em crise, pela crise, o número de suicídios seria muita maior do que os na Suécia. Imagine se você vai ficar chateado, revoltada porque nunca pode completar o tanque do seu carro – ou só uma vez por mês – que o IPVA desse ano você ainda não pagou – e que o próximo já está vencendo - que o seguro do carro está levando o leitinho das crianças e que, devido a revisão que você fica esticando, esticando, não arrisca à se aventurar com seu carro em caminhos longos ou desconhecidos: só anda pelo seu bairro, somente dentro da sua cidade.
        Faça como eu: a coisa em si, na maioria das vezes, não tem valor é você quem o dá. Faça como eu: veja as grandes e inestimáveis vantagens que existem em se viver num momento de crise!


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