Crônicas de Verônica Böhme

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O Código Da Vinci: religião e o feminino
Verônica Böhme


          Uma das principais funções da religião é dar apoio às almas humanas em momentos de dor e desespero. Também entendo que seja igualmente importante, o papel de contribuir para a melhoria das relações entre os seres humanos, quero dizer, inclusive, as interações entre o sexo feminino e masculino: religião e divindades devem ser os agentes contribuidores para uma convivência mais harmoniosa e respeitosa entre o homem e a mulher e não os criadores e propulsores da guerra entre os sexos.

         Desde menina estranhava que tanto na religião da minha mãe, o catolicismo, quanto à do meu pai, o protestantismo, só havia Deus. Eu tinha um tipo de sensação - nada lógico ou intelectual - de que na religião da minha mãe devia haver a Deusa e na do meu pai, o Deus. Não era assim.

          Com o tempo passando, e meu aumento de consciência, as coisas foram só piorando: como excluir a mulher de um processo que estava mais do que evidente que ela fazia parte intrínseca e que sem ela não acontecia? Existir um filho sem a participação da mulher!?! Sim, existia Deus, filho e o Espírito dentro das maiores “autoridades divinas” e não havia nenhuma mulher: estava começando a desconfiar que vivia num mundo onde as pessoas estavam mentalmente doentes, portadoras de uma insanidade mental sem esperança de cura.

          Mais anos se passaram e as coisas foram piorando...ainda mais: no planeta Terra todo, pelo menos em nosso século, só havia entidades divinas, escolhidos ou iluminados, que eram do sexo masculino: Moisés, Jesus, Maomé, Buda, Allan Kardec...estava cada vez mais suspeito não haver mulheres com poder divino ou entidades iluminadas femininas e, mais estranho ainda, para as mulheres sempre sobrava o pior: mais tarefas, mais normas, mais responsabilidades, mais repressões e mais culpa.

          Nunca lhes pareceu estranho que muitos homens se sintam no direito adquirido de espancar, agredir, desrespeitar as mulheres (em todas as classes sociais)?. Ou, por que as mulheres são violentadas sexualmente? Sexo deveria ser algo divertido e prazeiroso para a mulher e o homem, no entanto, até nos dias de hoje, as mulheres são tratadas como objetos e coisas que devem ser humilhadas para dar prazer aos homens.

          Temos algumas pistas para explicar esses comportamentos: se é dito, como começo de história, que as mulheres são pecadoras e más, culpadas da desgraça e do sofrimento do mundo, nada mais natural, e até justo eu diria, que os homens se achem no direito subconsciente adquirido de as espancarem, agredirem, desrespeitarem, afinal, são as mulheres essas coisas más e merecem ser castigadas, punidas e maltratadas – se necessário até a morte. Também natural que, se as mulheres foram somente criadas para servir aos homens, nada mais normal, e dentro da ordem e justiça, que elas trabalhem sem parar dentro da casa e cuidem dos filhos, velhos e doentes. Finalmente, se é ensinado que as mulheres são esses seres submissos, sem ação – de novo: nada mais natural que os homens “aprontem” tudo com elas e elas tenham que os acolher, os aceitar, perdoá-los...depois de tudo: irresponsabilidades, espancamentos, traições, desrespeitos. Afinal, o masculino é divino, “superior”, já o feminino é só uma “coisa”, inferior (claro), e má.

          Com os séculos passando o processo foi se complicando e criou-se um círculo vicioso onde o homem e a mulher alimentam os ódios entre si continuamente. Os futuros homens adultos são/foram os filhos dessas mulheres desrespeitadas e humilhadas e estas, agora mães, ensinam/ensinaram aos seus filhos, mesmo sem usar as palavras, que o masculino é ruim, mau, violento – pois “faz/fez mal” para elas.

          Se o filme o Código Da Vinci contribui para abrir uma fresta na mente dos seres humanos da possibilidade de divindades femininas, para que as mulheres não sejam vistas como ”coisas”, objetos, seres inferiores e maus; ou coisas criadas para servir, dar prazer e trabalhar sem parar, ele está prestando um grande serviço para a humanidade: tanto o sexo masculino quanto o feminino são divinos e nada mais natural que ambos se entendam e se respeitem.

 



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