Com essa prática que temos no Brasil com as crises, pegar uma guerra seria fácil, fácil. Vamos observar. Nada de realizações pessoais, projetos de vida, conquista de sonhos, e sim, uma única preocupação: sobreviver ao dia de hoje. Essa necessidade é da crise ou da guerra?
O mandamento que dá sustentação à estrutura da globalização, a lei inviolável para a maioria dos mortais é: se adaptar as mudanças e, o mais rápido possível! Informam um ataque marinho e temos que correr para trás das montanhas, comunicam um ataque aéreo e temos que correr para debaixo de alguma ponte, gritam: “Inimigo avança à direita” e corremos para nos enfiar em algum buraco à esquerda. Se adaptar as mudanças rapidamente, sem pensar: falo da crise ou da guerra?
O número de informações é imenso: bombas à direita, à esquerda; pelotões vindo de todos os lados, gritos ecoando em direções diferentes, cada qual apontando para uma nova direção onde julgam haver a salvação. A cada dia noites sem dormir para descobrir como sobreviver ao amanhã: O que comer? Onde trabalhar? O que fazer? O que estudar? Quem ouvir? Conviver com um número imenso de informações é da guerra ou da crise?
Na guerra é preciso ter estômago: ver amigos morrendo, feridos, espedaçados. Na crise é também necessário ter estômago. São notícias de demissões na mídia, são boatos de cortes na firma; tensões sem saber se está na lista, haverão muitas noites mal dormidas. Precisará de muito sangue frio para suportar seu pai, seu filho, sua mãe, seus amigos e amigas desempregados, endividados, tristes com baixa auto-estima.
Falar dos miseráveis e das crianças nos faróis seria golpe baixo pois se tornou tão normal, tão inerente a pintura brasileira que nem é mais considerado algo da crise ou da guerra. E o ataque corpo a corpo que os flanelinhas fazem!?! Foi com certeza aprendido nas táticas de guerra! Ao sairmos do carro aquele rapaz ou aqueles rapazes nos rodeiam como leões ao redor da caça indefesa. Aproximam-se do carro, praticamente entrando no mesmo, de tão incisivo que é o encostamento do corpo deles no veículo, nos intimando, seguros que não reagiremos e que pagaremos como se estivessem com uma arma apontada na nossa cabeça, tamanha é a certeza do poder que detêm.
Com todo o respeito aos que passaram pela guerra e com a consciência de que as diferenças são outras, as semelhanças são de todo modo inadimissíveis. Tenho a convicção do progresso do Brasil e do Mundo agora, a tática de ataque surpresa de nos dar de presente de Natal o aumento da passagem do transporte coletivo faz confundir a evolução dos últimos séculos com os primeiros passos de um passado onde as guerras se confundiam com as crises.
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